Para aqueles que ninguém ouviu

Era bem cedo naquela manhã, minha avó preparava o café e enquanto a chaleira borbulhava, eu organizava minha mochila para mais um dia de aula. Lá no quintal, fica o pé de jabuticaba, minha avó, quando está de folga costuma buscar uma bacia cheia daquelas frutinhas pretas bem brilhantes para a gente se lambuzar enquanto brincamos na esquina de casa de pique-bandeira ou esconde-esconde. Minha mãe costuma trabalhar bem cedo, antes do sol nascer, eu nem a vejo sair, mas nos encontramos mais a noite e ela ainda tira tempo entre o jantar e a novela das nove para rever meu dever. Meus irmãos, cada um no seu canto, eles são mais velhos, possuem desejos diferentes de vida e a gente briga, claro, coisa de irmão. Uma vez, um deles me defendeu, fui buscar a pipa que caiu lá do outro lado da casa de um amigo meu, mas depois me xingou bem feio, dizendo que para ir a um lugar que não seja o meu, eu preciso pedir permissão. Meu avô se foi já tem um tempo, eu era bem mais novo, mas lembro dele sentado naquela cadeira da sala ouvindo a rádio AM, seu radinho de pilha fica bem na estante até hoje, e a sua cadeira no mesmo lugar no canto da sala, que ás vezes eu faço balançar como se ele estivesse ali ainda cuidado da gente e da casa que construiu há mais de vinte anos atrás. Ele adorava o cheiro daquele lugar, cheiro de broa de fubá, coisa que vó faz no fim de semana para a gente lanchar.

Nesse dia peguei minha mãe chorando, ela segurava uma carta nas mãos, não sei o que dizia ali, mas senti que aquilo seria algum tipo de fim. Alguém queria tirar a gente dali, não sei dizer quem é ou qual a pessoa, mesmo se soubesse gostaria de ir lá na casa dela para saber: e se fosse com ela? A gente teria que ir embora dali, um lugar que eu sempre chamei de lar, não consigo imaginar meus laços fora dali, construí uma história… E se alguém descobrir o pote de pratinhas que enterrei no quintal? Disseram-me que estávamos bem no meio da estrada, na estrada de alguém, no meio do caminho, que ali não era nosso, mas depois de tanto tempo, porque foram nos dizer isso agora? Eu não sei bem. Só ouvi minha mãe dizer que o tempo seria curto para se ajeitar por aí e que seria preciso arrancar portas e janelas e por no caminhão junto com o rádio do meu avô e a cadeira dele. Pena, será que conseguiríamos encaixotar o cheiro de broa de fubá?

Para onde ir e como seguir, perder um lar é perder uma identidade de sonhos e de história, é não ter um passado ou se apagar da memória as construções com o meio, quem cuida, quem estava presente, quem fez de lá um lugar para chamar de seu. As justificativas que chegaram até a gente foram inúmeras, os motivos óbvios, esse ano é ano de eleição, minha mãe deveria procurar alguém de terno e gravata, eles tem voz e a gente não, ninguém escuta quem mora na beira da estrada, ou no meio do caminho deles. São melhores que nós? A indignação sempre comove as pessoas em geral, vieram algumas pessoas aqui, filmaram, tiraram foto, algo clamou-se por ser feito, em  algum lugar ecoou um movimento: por favor, não nos tire daqui. Mas nada foi feito. A favor do desenvolvimento. Foram lá apagar sem choro nem vela, sem conversa, sem acordo, apenas com um papel, um papel que dizia qual seria o meu futuro. Derrubaram foi tudo. Afinal somos nós os entraves, somos à margem de uma sociedade, representamos um verde e amarelo nas urnas, mas não nos direitos.

Eu não sei bem o que eu quero ser quando eu crescer, não sei qual caminho meus irmãos vão escolher, minha mãe ainda acorda bem cedo para trabalhar, talvez eu precise ir com ela até as coisas se acalmarem, não sei se irei perder esse ano na escola. Mas alguma coisa eu quero ser, sei que não vão trazer de volta uma infância que eu tive, nem terei como mostrar aonde ganhei meus primeiros arranhões e esse foi um grande tombo que vai me ensinar a crescer, a tia da escola na lousa não vai escrever, mas quando eu crescer eu quero ser uma voz, uma voz para essa gente que ninguém vê.

Uma história de décadas destruída em um dia… 

O que vem depois do desastre?

Ninguém os ouviu

 

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