O nosso subversivo selfie

As grandes transformações nos paralisam até que possamos nos acostumar com elas. O cotidiano é algo tão normal que sair do padrão nos caracteriza como loucos. Quem dirá aquele que berra, em voz alta nos alerta: estamos equivocados, estamos todos muito errados. Mas é tudo um grande reality show e entre o berro e o questionamento da mudança, somos ovacionados por tanta coragem de se falar aquilo que ninguém quer ouvir, a mais dura verdade.  Como não se fazer esquecido?

Os turistas argentinos e o golfinho, o trabalho escravo de muitas redes de roupas de marca e outros produtos, os abusos, os refugiados, os animais que morrem para saciar nossa fome, os subordinados, as comunidades indígenas e as arquitetônicas obras hidrelétricas, o agrotóxico, o agronegócio…O tapete vermelho do Oscar, os filmes com suas sacadas sociais que fisgam nosso estômago para que a gente não se esqueça que estamos fazendo isso tudo muito errado. Por sintonia, Eliane Brum, descreve em seu ultimo artigo ao jornal El País, a sutil forma de nos lembrar  que ao não saber fica mais fácil de se viver.  O sistema nos engole, nos aplaude enquanto paralisamos por acreditar que não temos outra escolha, a não ser fingir que nada dói.

Não sei quem já assistiu aos filmes premiados pelo Oscar 2016. O Regresso e Mad Max, dois filmes mais comentados pelas redes sociais, possuem algo em comum, a dominação dos homens por outros homens e a dominação dos homens por recursos de sobrevivência.  O Regresso, possui cenas marcantes, homens colonizadores em guerra, destroem povos, a história das Américas. Para mim, as duas cenas marcantes consistem na luta com um urso, em que senti a vulnerabilidade do homem  diante a força da natureza, a luta com um animal dito irracional. O filme marca também, pelo cenário de uma forte nevasca, para sobreviver o personagem se abriga a um corpo de um cavalo em busca de se aquecer, ao sair sinto como se renascesse, tomasse vida em forma de um animal forte e indomável. Leonardo Dicaprio, dessa vez, grande ganhador do Oscar e ativo as questões ambientais brindou com um belo discurso sobre a problemática ambiental, o aquecimento global, lembrando a grande mesquinhez que somos quando nos importamos apenas com nosso fugaz conforto rentável. Esse foi o grande prêmio da noite.

Quem somos nós afinal? Guerrilhamos, dominamos, ganhamos. O gosto do poder deve ser tão instigante que vicia os olhos e é por isso que criamos fronteiras. Já que o meu, nunca poderá ser seu.  Quebrar as barreiras de um sistema deve ser mesmo cheio de armadilhas no caminho, nunca sei se estamos mesmo progredindo ou andando em círculos. Spotlight, o grande filme ganhador do Oscar, baseado em uma história real, retrata a persistência de profissionais, o cotidiano, pessoas normais, vidas que seguem, e pessoas que não querem se acomodar com situações sistemáticas. Foi o berro que venceu, de forma triunfante. Que pequenos berros, vençam diariamente. Nada especial, já que padecemos incrédulos por coisas que não podemos mudar, muitas vezes achamos que faz parte. E o acreditar virou a compensação final em um ganho a mais, pensamos que economizamos o tempo já perdido de si mesmo.

Meu xodó, é lembrar que a animação brasileira, feito de traços e rabiscos, com uma trilha sonora envolvente pela alma e coração, ressurge nossa criança, a mesma que sonha, a que almeja e a que acredita, a gente colore nosso cotidiano com os olhos de uma criança. O menino e mundo, feito de nítidas diferenças do nosso tempo tem esperança e ela recria nossas mais novas mudanças. Um prêmio é só um prêmio, enquanto a luta será sempre diária. Seguimos.

 

Todo inocente é um fdp? – Eliane Brum

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