Enquanto eu sabia de tudo

Outro dia entrei em uma banca de revistas, coisa que há muito tempo não fazia. Acostumada a ter as notícias pela tela do meu computador, abro uma porção de informações, passo os olhos e me esqueço da coisa palpável, fui pedir um exemplar do Entre-Rios Jornal. Estranha sensação de ler as letrinhas impressas de tal maneira que podemos até imaginar o seu processo. O que fica por trás, quem faz e até quem entrega. Sentado em um banco de praça, alguém lê a coisa palpável, enquanto ao lado, outro alguém corre os dedos em uma tela brilhante e um pouco insensível.

O discurso sustentável possui sua ideologia econômica por trás. Outro dia me perguntaram o que eu achava dessa história: desenvolver para que as futuras gerações possam usufruir do mesmo. Mas o que seria o mesmo? Pela versatilidade tecnológica usufruirão dos mesmos recursos naturais, mas talvez de forma embalada. Por outro lado, existem muitas iniciativas bacanas dando certo e funcionando. Iniciativas essas que recuperam áreas de degradação, planejam melhor sua gestão, e utilizam da parceria entre comunidade e educação, gente que faz dar certo.  Apenas peço que junte as questões, o faça a sua parte é viável, desde que entendamos as intrínsecas relações políticas e econômicas em volta dela. É necessário o tempo de assimilar nossas opiniões para construirmos nossas posições.

Disseram: “economize água”, mas faltou acrescentar o quanto a irrigação e a indústria utilizam do mesmo recurso, falta saneamento básico para uma população que vive bem ali no leito de um rio que recebe os mesmos rejeitos, tanto de uma cidade inteira, quanto das indústrias e da agricultura. De acordo com o Repórter Brasil: do total de água doce disponível (para ser utilizado pelos habitantes do planeta) 70% são destinados à irrigação, 20% à indústria e somente 10% ao consumo humano. Quem controla a água controla a vida. Quem controla a vida detém o poder.

Abriram alas, o carnaval passou e o ano agora começa, esteja disposto ou não. Talvez por ironia, durante a maior e melhor festa do país, a questão ambiental também vestiu suas máscaras. Abriu-se entre os dias 04 á 14 de fevereiro, para consulta pública o debate sobre mudanças nos critérios e diretrizes gerais para o licenciamento ambiental pelo CONAMA (Conselho Nacional de Meio Ambiente), uma proposta que torna o licenciamento mais rápido, porém com muitas brejas para as questões de responsabilidade do empreendedor, dos entes públicos e preservação socioambiental. O desfile da lama da Samarco/Vale, o maior crime ambiental do país, rastro que percorre as veias dessa dicotomia entre desenvolver e ser sustentável, completa neste mês mais de 100 dias em que nada foi feito. Talvez o que mais tem sido feito é abrir brechas para que, questões como essas, sejam acusadas de acidente, e não um erro que aponte seus responsáveis.

A questão não é de comparação, e sim, de uma boa gestão dos entes públicos e planejamento territorial, é necessário investimento e mais corpo técnico capacitado, além da disseminação da participação pública. Interesses sobressaem outros interesses quando envolve o capital. É mais fácil visibilizar e viabilizar uma grande obra, como na época em que se falava da transposição do rio Paraíba do Sul, do que pensar em soluções a longo prazo. As secas continuarão intensas, as cheias continuarão maiores. Eu faço minha parte, enquanto não questiono o que o outro não faz, a grama do vizinho é mais verde que a minha?

Quebram-se muros e distâncias enquanto se abre espaço ao coletivo, a interação de sistemas torna-se bem maior quando eu divido o que eu sei com você, que me devolve o que sabe. Abre alas para o nosso bloco, abre alas para a nossa folia. Acho necessários os argumentos. É pleno para uma troca crítica de saberes, posições diferentes que nos coloquem em uma conversa de ida e volta, e não apenas uma conversa linear onde prevalece uma verdade única.

Soluções vão existir, como a lâmpada que quando queima pode-se trocar por outra na mesma loja sem precisar comprar uma outra nova, como o resto de peixes que vira adubo na plantação de comunidades ribeirinhas, como ações que buscam agregar conhecimento e cultura as populações mais vulneráveis. Busca-se agir. O agir pode começar pela fala, as palavras trazem um peso muito grande quando ditas, somos tão responsáveis por elas como por aquilo que acreditamos. Quanto àquele que lia a coisa palpável, foi necessário levantar-se e seguir como quem agora transporta uma curiosidade aguçada e um pouco de sabedoria.

É interessante saber também:

Nuvens de veneno: a desgraça do uso de agrotóxicos

Barbie 2016: Quem precisa da Barbie, tenha o corpo que tiver?

Nota da Fundação Nacional do Índio sobre a proposta de Resolução CONAMA que dispõe sobre critérios e diretrizes gerais para o licenciamento ambiental

As bancadas da Câmara

 

 

 

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