Um copo d’água, por favor

(21-01-16)

Lembro que olhávamos bem aflitos para um rio quase seco, ele andava meio que engatinhando tentando respirar junto ao esgoto que ali caía sem tratamento algum. Vem direto das nossas casas e deságua lá, do outro lado, o lado que eu não vejo e nem você. Eu lembro bem disso, do calor que fez o verão do ano passado. Não tinha água na cachoeira, falávamos em racionar e assustava a conta da bandeira vermelha. Ligaram as termoelétricas, custou caro economizar.

2016 começou já com uma retrospectiva, me lembrou as chuvas de 2011. Foi triste, coisas das quais ninguém gostaria de lembrar. O rio encheu de novo, encheu tanto que assustou a gente. Ele estava lá, forte e transbordando, estava lá meio furioso como quem não cabe no próprio corpo, parecia que tinham diminuído sua roupa, e que agora ele havia crescido, precisava transpor, precisava seguir seu fluxo natural, ser o que sempre foi.

Curiosos ou não, ficamos ali para ver, ver no que vai dar, impotentes pela força da natureza a gente só fica mesmo para observar. A natureza é dinâmica e como é maravilhosa. Vendo a gente bem ali admirar esse fluxo de água que passa, seca, ressurge, vem e toma seu espaço. Como podemos acreditar que a dominamos? Homens que dominam outros homens acreditam, pequeninos que são, que podem domar essa viva natureza.

Crescemos competitivos, esquecemos de curar nossas respostas imediatas e buscar soluções duradouras e profundas. Acreditamos que o domínio, sobre sua qualquer forma de subordinação nos faz melhor do que os outros. Melhor do que um rio silencioso.

Recebemos uma estrela em marte semana passada, David Bowie talvez veio em uma astronave, como em o “Homem que caiu na terra”, filme de 1976 dirigido por Nicolas Roeg, que indico para essas férias. No filme, o extraterrestre protagonizado por Bowie, avistou um planeta água, desejou construir uma espaço-nave para voltar para casa e levar água a sua família, mas acabou conhecendo o domínio das engenharias, políticas e tecnologias, foi consumido pela TV e a bebida alcoólica. O homem-extraterrestre que acreditava na pureza e no intelecto, foi um estrangeiro em um mundo hostil dominado pela ganância de ser o que não se é, de querer aquilo que não se pode ter, contava com a tecnologia para fugir do exílio na terra e acabou prisioneiro em um mundo distraído por TV e bebida. Talvez essas nossas mazelas nos distraem para aquilo que não queremos ver, pois não saberemos lidar com essas situações: secas extremas, enchentes na cidade, deslizamentos, falta de alimento. É melhor não pensar, fica distante dos nossos olhos que padecem com a dor do outro.

Ondas no espaço. Vi uma notícia de um armazém nas montanhas de uma ilha no Ártico, que resguarda nossas sementes dos impactos das mudanças nas temperaturas globais. A tecnologia por fim, resolveria nossos males ecológicos? Precisamos enfrentar as próprias reflexões sobre a interação homem-natureza. Penso nisso, enquanto vejo o rio passar, ele vai desaguar lá no mar, mas ele vem carregado de tudo que vê no caminho, ele vem carregando a minha história e a sua, o meu futuro e o seu, indo de encontro a outras pessoas que nem a gente, que sobrevivem por ele, que necessitam dele e que olham para os céus em busca de uma solução.

Laços comunitários, ainda precisamos criá-los. A comunidade ribeirinha sofre, precisa do rio e dele vive, mas esses, os que estão á margem de uma sociedade desigual, são os que compreendem que é necessário cultivar para desenvolver é necessário ouvir a base participativa de um mundo dinâmico e imprevisível. Plantamos para crescer, colhemos para receber.

Coluna para o Entre-Rios Jornal

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