As batidas desse relógio – Máquinas que quebram ou seres que pensam?

Coluna do dia 12/11/2015 para o Entre-Rios Jornal

A visão mecânica ainda continua a dominar os nossos dias.O que nos faz pensar que a natureza funciona assim também, imagine como um relógio.Nós a desmontamos, reduzimos em um monte de peças simples e achamos ser bem fácil de entender, com todas as peças desmontadas  a gente analisa uma a uma e começa a pensar que entendemos o todo.

Dominamos as máquinas. Máquinas boas, somos nós saudáveis como um relógio bem-feito. Máquinas que não servem mais, são descartadas como peças que não valem nada. Passamos a acreditar que tudo funciona bem assim, as plantas, os animais, a vida em si. E esse pensamento anda tomando conta de tudo, da política, da economia, das nossas relações.

A gente conserta uma peça, mas quebra outra no próximo segundo, porque ignoramos o que nos conecta. Se precisamos mudar? Precisamos dessa mudança em tudo de uma vez, ao mesmo tempo, os ideais, as instituições, os valores.

As novas tecnologias estão aí, a comunicação também, temos um banco de dados que anda causando mais problemas do que resolvendo situações. Se achamos a cura de uma doença, o seu custo em tê-la é extremamente alto, subordinados a um sistema linear de provas por números e não mais por qualidade de vida.

O autor do livro no qual eu cito suas ideias nesta pequena coluna, Fritjof Capra – O ponto de Mutação, diz que: “Atitudes e atividades que são altamente valorizadas nesse sistema incluem a aquisição de bens materiais, a expansão, a competição e a obsessão pela tecnologia e ciência pesadas. Ao atribuir excessiva ênfase a esses valores, nossa sociedade encorajou a busca de metas perigosas e não-éticas e institucionalizou muitos dos pecados mortais do cristianismo: a gula, o orgulho, o egoísmo e a ganância.”

E as coisas mudam muito rápido em nossas mãos. A natureza se fragiliza,uma chuva torna-se ácida, os rios secam, os mares de morros são mares de lama que agora soterram cidades, invadem casas e histórias, não pedem licença, vem sem avisar, sem bater na porta.

Quem controla esse relógio tem poder. E a maioria de nós já perdeu o controle. Viramos tão vítimas quanto essa natureza, digamos frágil, essa que achamos que anda precisando de nós. Mas nós estamos bem aqui precisando dela até para entender um pouco do que é ser.

Somos imensos relógios que não entendem as nossas próprias peças, obcecados pelo crescimento. O crescimento do bolo. O bolo que se fatia sem parabéns para você, sem sentir ao menos o sabor.

Estamos predestinados a deixar acontecer. Porque quando um desastre ambiental acontece, tudo aparece, tudo é culpa, tudo é motivo. Implantamos as leis a rigor, as multas, e nos padecemos até um certo momento. Mas afinal o que muda? O que muda mesmo foi levado embora, tirado a força, sem jeito de se voltar atrás.

Será que existe algum risco ou um erro em dar uma nova chance a um novo princípio? A crise é de percepção. Enquanto não aprendermos a ouvir o maior organismo vivo, que é a própria terra, não saberemos nos comportar dentro do próprio ego.

  • Texto baseado no livro de Fritjof Capra – O ponto de mutação

No dia 05/11/15 participei de uma atividade educacional com mais duas companheiras de profissão. Fomos em uma escola pública localizada no interior de Minas Gerais, falamos para jovens entre seus 14 e 18 anos sobre recursos hídricos, sobre energia, e sobre participação pública. Levamos para aqueles jovens a visão de quem vive uma outra realidade e de quem precisa deixar sua mensagem para fazer pensar atitudes, todo esse trabalho é exposto através de documentários independentes, um material do circuito tela verde fornecido pelo MMA. Jovens empolgados, possuem contradições e vontade, os sonhos ainda permanecem. Ali, naquela cidade do interior de Minas falávamos sobre o Rio Doce, as bacias hidrográficas e os rios da cidade.

Grande contradição. No mesmo dia, ficamos sabendo do grande impacto ambiental ocorrido no distrito de Marina-MG. Samarco, Vale, a mineração e seu mar de lama, carregando todas as palavras, todos os sonhos, todos ecossistemas que agora não escorrem pelas mãos mas abrem veias sem pedir licença. Estamos todos enterrados, soterrados por constante contradições imposta por uma mídia mais perdida do que quem a governa. Não há um grupo específico que fique de fora, o caos generalizado atinge a gente de longe também quem enxerga pela janela aquilo que não se pode mensurar, muito menos traçar um preço. Os valores impostos pelo mercado. A gente finge nem ver o que passa por debaixo da nossa janela.

Por que a Vale foi eleita a pior empresa do mundo?

A arte de ignorar a natureza

Teia de interesses liga políticos a mineradoras em debate sobre novo Código 

Lama até o pescoço

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s