O Sussurro das mazelas interiores

Não estou falando de aglomerados urbanos dos grandes centros da cidade, esta problemática vem crescendo aos poucos e atingindo não somente os sistemas periféricos mas batendo na porta das elites.

Vivo em cidades relativamente pequenas, aquelas que possuem apenas uma empresa de ônibus, onde as distâncias não são muito grandes e existe uma convivência de que todos se conhecem como filho do ciclano parente do fulano. De uns tempos pra cá, não muitos anos, essas cidades explodiram ficando nítido tal movimentação diferenciada. Pude conviver com dois lugares distintos onde em um local as portas foram abertas para as empresas e a estrutura da cidade se desenvolveu rapidamente acompanhando o crescimento empresarial, porém se percorremos os bairros afastados podemos ver a diferença entre o desenvolvimento e as oportunidades que não se abriram para todos, em alguns locais não há solução para problemas como o  saneamento e a educação, esses são considerados os excluídos e esquecidos, os que vivem longe dos olhos daqueles que não querem enxergar, a cidade cresceu mas sua desigualdade também.

Pelo meu cotidiano, vejo diretamente aclamações para o céus. Faça chuva ou faça sol, existe uma nítida diferença tanto quando chove tanto quando não chove e parece que ninguém distingue o que é pior já que as causas pelos danos são sempre as mesmas, claro, coisa da natureza e a regra fica explicita: a gestão pública nunca tem culpa. É engraçado questionar quando você percebe enchentes nas primeiras chuvas, bairros afastados lotados de barro até os muros e os morros que cercam a cidade completamente pelados pelas queimadas ocasionadas pela seca e que o rio não está cheio e sim sujo e abarrotado, não falo de uma visão apocalíptica falo de eventos corriqueiros que muitos já estão acostumados, pois acontece todos os anos, toda época, todas ás vezes. A solução ainda continua parecendo simples, lavando nossas calçadas com mangueiras pra espantar a sujeira e esperar na seca ou na chuva que as soluções caiam do céu.

No outro local, o que conheço muito bem pois é minha cidade natal, devo dizer que ainda procuro um lado positivo pois por aqui ainda nada mudou. Gostaria mesmo de dizer sobre pontos culturais, semanas de meio ambiente, melhoria da educação e oportunidades de crescimento e emprego. Mas não, as pessoas que continuam aqui, continuam com as mesmas mazelas que carregam há anos, convivendo com absurdos gritantes, desde a passagens de ônibus exorbitantes, má condições desses transportes, ruas esburacadas, e o constante crescimento da marginalização junto com a falta de educação.

Convivo percebendo os pequenos detalhes, daqueles que falam que não há mesmo solução, com aqueles que não se importam e com aqueles que não tem escolha mesmo. Pena, é uma cidade bonita, era pra ser das rosas e não dos loucos. Quem caminha por aqui percebe o cinza da falta de perspectiva de uma população que não acredita mais, aqui é gostoso de se visitar mas não há voz, não grita, não mexe e parece que por aqui não se escutam mais.

Liguei para a única empresa de ônibus que aqui possui e na qual tem uma licitação de vinte anos a mais pela frente com o aumento anual da passagem, liguei pois no dia que precisei usá-lo embarquei em um ônibus sujo e questionei a um trabalhador da empresa sobre a questão e ele disse que não sabia mais o que fazer sobre, estava ruim pra ele e para os passageiros, que já havia mostrado o problema mas que a empresa mesmo não fazia nada pra mudar. Quando liguei para sugerir tal melhoria pois aqui se paga caro pelo transporte público e pelo menos limpo ele precisa estar me disseram que vão averiguar a situação, apenas. Mas quem sou eu pra questionar um único serviço em que eu não tenho mais nenhuma outra opção e no qual ninguém mais reclama sobre? Eles aqui pagam caro e pagam por nada por apenas aceitarem as coisas como são.

Minha gota d’água foi dar de cara com um jornal informativo da prefeitura da cidade, dizendo que militantes protestam contra a educação. Este questionamento do jornal passa por toda a população da cidade, pois fazem questão de ser uma informação gratuita e que ainda gera preconceito com aqueles que pedem mudanças e melhorias. Questionei a reportagem a um conhecido meu, dizendo que iria procurar saber mais sobre o que tal informação queria dizer, ele refutou dizendo que minhas fontes são contrárias ao pensamento exposto no jornal, mas é claro que sim, ali todos convivem com uma única verdade qual o problema de procurar saber sobre outros questionamentos e pontos de vista? Na realidade é assim que deveria ser. Então, pesquisei na internet sobre o que estava acontecendo me deparei com a reportagem em canal sério de TV regional sobre a questão da educação na cidade, diferente do que aponta no jornal da prefeitura, a população está contra a decisão que estão impondo.

Assim, vi como aqui é facilmente desdobrável colocar tudo pra debaixo do tapete mesmo, dizer que quem sabe e age é baderneiro e louco e não sabe do que estão dizendo, é como se mandassem todos ficarem quietos, a eterna letargia de um cidade que poderia ser muito mais do que a dos loucos. Mas que sejamos então loucos e que essa loucura não nos condene a aceitação generalizada ou a verdade absoluta.

cidade Barbacena-MG

Fotos: Viviane Cardoso – Barbacena-MG

ocaos

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